1. Tormentas

Tormentas é a primeira exposição individual de luiz duVa (São Paulo, 1965). Constituída sob a forma de uma ocupação, ou um ensaio, é articulada especialmente para os espaços da Galeria Pilar.

A questão da tormenta revela muitas vezes modos com os quais nos sentimos vulneráveis diante do outro, de uma circunstância ou um ambiente dado. Ser vulnerável prescinde, portanto, da ativação de uma capacidade específica do sensível.

O tormento, um tema bastante relacionado na arte, coloca em xeque aquilo que não pode ser evitado, que exige contato. Convida-nos a sermos participantes ativos (ou coadjuvantes, desatentos) sobre aquilo que não nos é conhecido.  É como um convite à experiência. Pressupõe, portanto, um grande esforço do artista no sentido de reorganizar a atenção dos observadores.

Trazer o plano de envolvimento do outro quando se trata de colocar em contato uma turbulência não é fácil. Exige restaurar os sentidos, as potências do corpo, principalmente quando se está diante de um outro, ou uma sociedade, que na maior parte das vezes responde de modo defensivo quando se sente confrontada com aquilo que implica transe, desastre.

Enquanto o plano vulnerável dos sentidos abre portas para aquilo que é de ordem exploratória, o plano defensivo, involuntário, protege mediante a paralisação, a imobilidade, a apatia e a insensibilidade.

Existe, no entanto, uma capacidade no corpo de explorar o mundo que nos deixa mais ativos, no sentido de mais vulneráveis ao outro e ao ambiente. Trata-se de uma espécie de perturbação indireta proveniente das fibras nervosas, dos tecidos da pele, dos músculos e dos pêlos. É a chamada sensibilidade háptica, que determina um contato real, físico, palpável, entre o sujeito e o mundo. Ela designa a pressão, a textura, a vibração e outras sensações relacionadas ao toque. É esta sensibilidade que possibilita uma forma intensiva de sensorialização do corpo no espaço.

Diante deste tipo de sensibilidade, que tem no corpo um lugar privilegiado de experiência, os trabalhos aqui reunidos de luiz duVa resignificam estados de tormenta. Produzem contato com o outro por meio de estímulos sensórios, como a imagem e som formados no corpo do visitante, como as deformações da paisagem, as interferências dos sinais eletrônicos do vídeo, a arquitetura e a programação digital. Fazem isso no sentido de criar relações entre o plano contemporâneo das tormentas humanas e os modos como as mesmas geram afecções no corpo.

É como uma busca que o artista faz no sentido de ajustar o corpo do outro a centros difusos, a zonas de turbulência, colapso e vulnerabilidade. Suscita, com isso, não apenas tatilidade, mas também desconcerto, contraste, procurando não impor separações entre o sujeito e o ambiente sensório.

luiz duVa apresenta, desse modo, em Tormenta azul brilhante, na primeira sala da galeria – próxima à rua, como um cubo dentro de um outro cubo – um excesso de estímulos, uma fusão de sensações entre corpo, arquitetura, imagem e som, reconhecíveis em seus estados imersivos, entrópicos. Esse excesso de estímulos irrompe no observador um organismo sinestésico de intensidades, provocado no atrito existente entre corpo e linguagens digitais. Busca oferecer ao público um plano de sensações sobre a dimensão da tormenta que tenha a capacidade de afetar a sua percepção habitual, cotidiana. Invoca tormentas sentidas como corpo, luz e energia.

Já na segunda sala da galeria e no jardim, o artista apresenta – sob a forma de impressões sobre papel e um vídeo – certas tormentas que são como desdobramentos da anterior, sob a forma de distorções imóveis, como quietudes, como olhos do furacão, ou tensões calmas.

Ao relacionar o conjunto de obras, é possível observar que é por meio do diálogo entre diferenciados espaços de suspensão que luiz duVa empreende suas tormentas, táteis, multisensoriais, fruto de interações com o corpo, como cortes (i)móveis na aceleração do tempo. Mostra em seus trabalhos uma capacidade que o campo imagético possui hoje de ampliar a experiência sensória, promovendo dobras entre o dentro e o fora do corpo, como um sistema háptico de pulsações e vibrações, na busca por fazer o sujeito sair de processos protegidos, anestesiados, de apreensão do mundo.

A esses procedimentos altamente sensorializados de luiz duVa denominamos aqui tormentas eletrônicas. Trata-se de variados agenciamentos criativos realizados a partir de um conjunto de cinco expedições que o artista fez em 2008, na costa inglesa, em busca de tempestades.

  1. Entre paisagem e performance, entre Turner e duVa

Antes da existência dos dispositivos de processamento sensório utilizados por luiz duVa (1965), como o vídeo e as linguagens digitais, artistas como William Turner (1775-1851) também produziram expedições nas proximidades da costa inglesa no sentido de buscarem lugares de grande variação climática para produzirem suas pinturas. Iam ao encontro de lugares de rápidas viradas de tempo, lugares propícios tanto a tempestades quanto a grandes luminosidades. Tornavam assim indiscerníveis os limites entre céu e mar.

Em alguns desses casos, logo após uma tormenta, assim que o sol se abria, posicionavam seus corpos diante dele no sentido de cegarem momentaneamente seus olhos. Constituíam, com isso, uma imagem corporificada, formada na mente e gravada na retina, um efeito neurológico chamado after- image ou pós-imagem.

Esse tipo de efeito é como um flash de luz intermitente, de duração muito curta, que produz uma imagem involuntária na mente. Por meio da presença ativa do corpo, gera uma espécie de breve cegueira, ou colapso, entre o observador e o mundo. O espaço passa a ser, assim, corporificado.

Artistas como Turner objetivavam com o after-image uma percepção ampliada, um modo de afetar o corpo por meio do sistema óptico, de uma realidade externa direta, de índole não realista e não ilusionista. Promoviam, desse modo, rupturas com o sistema de representação vigente, advindo na época pela perspectiva clássica. É proveniente desse período telas como Luz e cor (Teoria de Goethe) – a manhã após o Dilúvio – Moisés escrevendo o Livro de Genesis, produzida por Turner em 1843.

O que significaria para Turner pintar sobre o efeito corpóreo da tormenta? O que significaria mostrar uma manhã após o Dilúvio? Significaria um gesto contrário à placidez? Significaria ser enfrentado pela tormenta? Significaria ter que lhe dar uma resposta? Ao produzir uma imagem de tormenta, fricção, destroço, por meio da exposição direta do corpo ao sol, objetivaria Turner vergar o fora dela, produzindo com isso a experiência da cor por meio de relações físicas, sinestésicas, entre corpo e imagem?

Independente das respostas, importante notar certos diálogos artísticos que permeiam – de forma anacrônica – William Turner e luiz duVa. Importante também discriminar hoje em dia certos modos como a presença adquire intensidade, certos modos como sentimos o corpo ativado no espaço sensório. Importante notar também como Turner já nos mostrava mudanças de postura entre natureza e cultura, entre imagem e corpo, entre paisagem e performance.

Captar uma tormenta no momento em que ocorre e fazê-la hoje em dia permanecer é algo que por vezes só as câmeras e seus aparatos de processamento conseguem. A visão da tormenta suscita contato e perca de estabilidade. Suscita posicionar o corpo diante daquilo que é simultaneamente tenso, impreciso e transitório.

Se por um lado William Turner vivenciou tais tipos de desafios a partir da crise do sujeito e da experiência do espaço social no século XIX, luiz duVa vivencia crises mais recentes do sujeito diante do espaço informacional e do tempo digital no século XXI. Elas têm a capacidade de reorganizar agenciamentos do corpo no espaço, colocando em evidência problemas como presença, aparição e desaparição.

Do mesmo modo que Turner promove expedições na costa inglesa em busca de tempestades e se coloca diante do mar, duVa assim também o faz. Nesse sentido, Turner deseja tirar o corpo da metafísica da interioridade – propiciada pela visão perspectivada da câmera obscura – que isola o observador do mundo. Enquanto duVa está diante de uma sociedade em rede, que modela o sujeito por meio de sistemas de vigilância, conduzindo corpo e imagem a zonas indiscerníveis entre a comunicação e o controle social.

Em luiz duVa um outro tipo de tormenta toma existência diante da costa marítima inglesa. Para enfrentar o que lhe causava temor, o artista organiza um método próprio de apreensão da tormenta. Para tanto, ele se coloca disponível por muitas vezes, diante do mar azul, à espera de uma tempestade, em lugares como Whitbay ou Land end (O fim da terra), com uma câmera de vídeo em estado fixo (apoiada no tripé e posicionada na vertical, de modo invertido à posição tradicional do visor, fazendo perder, com isso, o sentido da lei da gravidade). Objetivava gravar diretamente a luz do sol no momento de sua transformação, no momento de virada do tempo, colocando em colapso, ou literalmente cegando, deformando, o sistema óptico da câmera. Produzia, com isso, uma espécie de after-image no dispositivo videográfico.

Em uma dessas vezes, no entanto, o vento estava muito forte e ele o registra. Como relata duVa, “o som, gravado tecnicamente defeituoso, foi fundamental para a criação da tormenta eletrônica, porque é ele o condutor de toda a manipulação da tempestade eletrônica que ocorre dentro do computador, que processa a imagem originalmente captada, alterando seus parâmetros de cor e de interferência eletrônica em tempo real, de modo que a tormenta eletrônica está ali, acontecendo ao vivo, diante de cada pessoa que visita a obra”.

Um novo tipo de after-image ocorre aqui. É pela vibração sinestésica, referente ao ruído intensivo do vento na câmera de vídeo, captado de modo precário, que luiz duVa traduz a noção de tormenta aqui presente e a transforma em performance entre corpo e imagem. É esta vibração sonora que problematiza a presença do corpo em Tormenta azul brilhante. Nela, encontramos uma espécie de defeito sonoro, ou microfonia, que age sob a forma de deformações da onda hertziana, que por sua vez acusam reverberações no espaço sensório.

Essas deformações físicas do som tornam possíveis, palpáveis, o campo da sensibilidade háptica. Transformam aquilo que é abstrato, invisível, em sensação, em experiência com o corpo. Associadas à interação e ao processamento em tempo real que adquirem na instalação, por meio do programa Isadora, as deformações físicas do som tornam presentes, de modo direto, a relação do corpo com as imagens. Corporificam, assim, o caráter invisível, imponderável, entrópico, de uma tormenta.

As tormentas produzidas por luiz duVa não tratam de efeitos de after-image – de cintilação e suspensão do espaço sensório – que interferem apenas no corpo do artista (como nas experiências de William Turner), mas sim significam efeitos de after-image produzidos por meio de dispositivos tecnológicos que atingem diretamente, de modo físico, o corpo do outro, no caso, o agenciador da experiência, o interator.

O corpo do visitante reconhece, desse modo, em Tormenta azul brilhante, a experiência física do after-image como uma profusão de ruídos eletrônicos provocada por uma espécie de efeito estroboscópico (tal qual um flash dentro do corpo do visitante), que, por sua vez, empreende uma busca sobre-humana, reconhecível de modo tormentoso, em tentar corrigir tais (d)efeitos provocados pela cintilação e pela suspensão temporal do espaço sensório.

Como um efeito de suspensão corpórea, as imagens e sons eletrônicos adquirem complexidade, não sendo mais concebidos apenas como algo advindo da representação de mundos visíveis, mas correspondem agora também a uma experiência física, a um acontecimento, a um tempo intensivo compartilhado no corpo do outro. Trazem com isso o estatuto de vulnerabilidade ao corpo, convidam-nos a sermos ativos, exploratórios. Nos possibilita outros modos de sairmos de estados de apatia com o qual muitas vezes vivenciamos situações de desordem, assim como outros modos de nos relacionarmos com o plano sensório das imagens e sons na atualidade.

Quando se está em frente a uma tempestade que chega do mar, quando se está diante de um signo de destruição, ou diante de uma turbulência traduzida como câmera, que estados de reversão podemos ter?

O que fazer diante de uma tormenta azul brilhante que nos enfrenta?

As respostas que luiz duVa nos oferece são discretas. Como também são discretos os estados verticais e descontínuos das três telas e dos pixels, sobre o efeito de um processamento que discrimina e coloca em primeiro plano intersecções entre corpo e linguagens digitais.

É quando som e imagem acontecem no corpo, fazendo-o vibrar, que podemos sentir um tipo de tormenta. É quando percebemos que um encontro ao desconhecido é dado a experimentar.

Assim como em Turner, não há aqui a profundidade do mar. Há sim blocos de sensações traduzidos sob a forma de uma superfície plana. Blocos táteis de cor, luz e energia que transformam experiências com o corpo. Como um estado transitório, observamos tais tormentas como espaços corpóreos de imersão, entre revolução e silêncio, entre o orgânico e o digital.

Assim, as tormentas eletrônicas de luiz duVa irrompem um outro plano de tensões, situam o sujeito no espaço sensório, situam também um outro plano de relações entre paisagem e performance.

Assim como William Turner produziu massas de luz e cor a partir de estados do corpo sensibilizados pela luminosidade do sol (o chamado efeito after-image), luiz duVa gera experiência corpórea a partir do contato direto com pulsação sonora e visual. Utiliza-se para tanto do recurso da sensibilidade háptica, no caso, do corpo em confronto com o plano das vibrações eletrônicas.

O artista promove, com isso, desmaterializações, abstrações, do mundo visível, por meio do contato no corpo com tormentas supostamente incontroláveis, disruptivas, difíceis de serem enfrentadas, e na maior parte das vezes impossíveis de serem vivenciadas a olho nu.

Nesses trabalhos experimentamos a sensação física, o efeito orgânico que as imagens e sons provocam. Relações essas em que o tempo é imobilizado, colocado em conflito, em suspensão.

luiz duVa traz-nos desse modo a noção de espaço corporizado – em que o observador é parte do espaço – associado à noção de tormentas eletrônicas multisensórias, como superfícies temporais sobrepostas, como redes de interações com o outro. Responde assim à dissolução da linha limítrofe entre sujeito-objeto, da tradicional oposição entre dentro/fora e a possibilidades de reconfiguramos hoje em dia a experiência entre corpo e imagem de modo vulnerável, intensivo, tátil.

Ao promover a presença viva das imagens e sons em nosso próprio corpo, como uma tempestade eletrônica, nos faz experimentar a capacidade de estarmos imersos no mundo e sermos afetados por elas.

Assim como William Turner, nos coloca diante das pressões e dos pontos críticos por meio de pequenos gestos ou posturas sutis, diante do vazio aterrador do mar, do medo do outro, das incertezas e dos processos transformatórios.

 


 

Christine Mello, é pesquisadora em Comunicação e Arte, curadora e crítica de arte. Autora de Extremidades do vídeo (Senac, 2008) e coautora de Tékhne (MAB, 2010). Professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica e do Curso Artes do Corpo da PUC-SP, assim como do Curso de Artes Visuais da FAAP. Possui pós-doutorado pela ECA-USP, sendo doutora e mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP.