Curadorias AV

Mostra Live Cinema

De 2007 a 2015 fui o diretor artístico da Mostra Live Cinema (mLC). Uma mostra exclusivamente de performances audiovisuais que durante as suas 9 edições trouxe para o público brasileiro obras e artistas que faziam uso da performance e da manipulação de dados em tempo real para propor a criação de uma forma de audiovisual que transcendesse o suporte, o espaço e o tempo. 

 

Visite o canal da mLC no YouTube, no Vimeo ou no Flickr.

 

Lá você encontrará boa parte da documentação dessa bonita história do AV brasileiro.

"Lumière II" de Robert Henke, 9mLC (2015). Fotos de Danila Bustamante.

Redbull

Live Images

Em 2002 fiz a curadoria do Redbull Live Images que foi, historicamente falando, o 1ª Festival Brasileiro de Vj's. Nele surgiram pela 1ª vez para o grande público artistas que viriam a se consolidar como os formadores da 1ª geração de Vj's brasileiros.

Documentação feita por Fabiana Prado.

Leia abaixo um trecho do texto "Já temos um passado" de Patrica Moran que conta um pouco do que aconteceu no Redbull Live Images.

"O Festival RedBull Live Images organizado em 2002 por Luiz Duva, Tatiana Lohmann e Fabiana Prado é exemplar para pensarmos a cena atual. Além de criar um espaço de encontro como os festivais em geral, ele funcionou como um dínamo ao reunir pela primeira vez no Brasil realizadores que de maneira isolada criavam seus trabalhos. Naquele momento as cidades ainda não haviam abrigado este tipo de produção, os poucos realizadores em ação se apresentavam isoladamente na abertura de festivais de arte eletrônica, em raves e poucos clubs. Considero paradigmático o RedBull Live images pois até hoje não vi no Brasil um evento como aquele, desculpem-me o romantismo mas tratava-se de um espaço de liberdade, de entusiasmo generalizado diante do reconhecimento da existência da incipiente cena. O entusiasmo também estava na possibilidade de se mostrar e conhecer o trabalho alheio. A montagem do lugar onde se deram as apresentações foi pensada tendo em vista se garantir a qualidade da imagem e do som, o que deveria ser uma regra salvo louváveis exceções não é uma norma nessa terra pau-brasil. Em um galpão do bairro paulista Barra Funda três ambientes com intercomunicação física e visual abrigavam nove projetores. Telas de diversos tamanhos e disposições faziam o desenho do ambiente, não havia palco. A separação entre o público e os realizadores era feita por mesas – como em um ambiente doméstico – com diversas tralhas, trecos e traquitanas conhecidos popularmente como computadores, mixers e câmeras e é claro etc, etc, etc.

O público andava, estava literalmente entre imagens. Se embriagado não estivesse, a disposição das telas os teria assim deixado. Era praticamente impossível apreender de um único ponto de vista o espaço como um todo, as telas ali presentes. As mesmas tinham tamanhos e dimensões distintas. Se o espectador estivesse situado no espaço das mesas, o mais central de todos, ficaria circundado por quatro projeções. Esta sala tinha duas passagens para outros ambientes, através dela víamos uma espécie de totem com três projeções em um dos lados e no outro uma sala onde havia o bar, esta piscava pelo reflexo das imagens das outras salas. O lugar ocupado no galpão proporcionava uma experiência diferenciada do espetáculo, cada espaço oferecia telas e pedaços de telas distintos. Na fila do bar tínhamos a visão do que se passava em uma projeção comprida, mas também neste lugar era possível uma paquera com uma tela da sala das mesas e um pedaço da terceira sala. Havia um gigantismo nas projeções funcionando como paisagens, além de (des)orientar espacialmente o espectador, a diversidade e dimensão das telas tornava evidente a temporalização do movimento. Em função do seu tamanho e do pedaço oferecido à visão tínhamos a percepção – equivocada, mas tão evidente e verdadeira – de distintas temporalidades para o que estava sendo mostrado.

Os planos mais próximos pareciam mais lentos, os mais abertos colocam mais elementos na tela, logo, oferecem espaços para o olho escolher o que quer observar e assim o todo sugere outro tempo. O mergulho entre os telões propiciava ainda um espaço de estimulação visual e sonoro, algo como uma instalação sensorial gigante criando uma massa de luz pelos projetores e seus reflexos. Cada trabalho enfatizava alguns pontos de vista e, focos de luzes e cores.

 

Vale lembrar que nas máquinas rodavam programas simples, o FinalCut,  programa originalmente criado para edição, imperava na maioria dos computadores. VJ Spetto usava seu aplicativo VisualRadio, o primeiro brasileiro a desenvolver uma ferramenta de programação para trabalhar com imagens em tempo real. Um mixer simples misturava imagens com alternativas escassas de variação dos parâmetros da imagem, ainda prevalecia a instabilidade produtiva da mão e seu toque na timeline no evento de criadores de ritmos, de exímios montadores. A filiação dos primeiros VJs brasileiros com a montagem e corte ao vivo para TV é nítida, quase todos passaram por ilhas de edição e televisões, alguns chegaram a levar para suas primeiras apresentações pedaços de ilhas VHS e no caso de Duva uma ilha não linear da AVID, um monstrengo sofisticadíssimo pela resolução de imagem oferecida e gigantesco se considerarmos o tamanho atual das estações de edição.

Se revezavam nas mesas Palumbo, Embolex, Bijari, Feito a mãos (hoje disperso), Nirvana, Duva, Jodele Lacher, Aléxis, entre outros. Cada grupo ao se apresentar proporcionava uma configuração espacial distinta em função das imagens exibidas e de outros recursos cênicos utilizados, como vendedores de maçã do amor e atores colocados ali pelos Bijari, na época com Giuliano Scanduzzi na trupe. Como processo de constituição de um acontecimento os espetáculos apresentados estavam mais próximos da dança, do teatro e da música do que do cinema como praticado atualmente nas salas de projeção. A situação das apresentações acima descritas podem ser aproximadas ao cinema, mas, estamos ai nos referindo a um outro cinema, aquele tão bem colocado por Arlindo Machado.  Segundo o autor o pré-cinema “reunia na sua base de celulóide, várias modalidades de espetáculos derivadas das formas populares de cultura como o circo, o carnaval, a magia e a prestidigitação, a pantomima, a feira de atrações e aberrações” (76).  A aproximação do Live Images com essa situação dá-se pela diversidade de atrações propostas, pelo lugar do público, pela apresentação do Bijari e pelo tipo de atenção dispersa solicitada. Como coloca Machado : se podia também comer, beber, dançar (…) nos music-halls na Inglaterra, café-concerts na França e vaudevilles ou smoking concerts nos Estados Unidos (78). Algo impensável nas atuais salas de cinema".

Proposta de ambientação das Imagens no Redbull Live Images.